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Conheça Jhow Carvalho, vencedor do Prêmio Malê de Literatura


Jhow Carvalho | Foto: Ully Zizo

​O Prêmio Malê de Literatura foi criado em 2016 para colaborar com a visibilidade positiva de jovens negras e negros, estimular o maior envolvimento com a escrita e a leitura literária e promover escritores negros e a literatura que eles produzem. Foram recebidos 180 textos de jovens de 15 a 29 anos e para cerca de 65% dos inscritos este foi o primeiro prêmio literário. Neste grupo, estava Jhow Carvalho, 22 anos, negro, ator, dançarino e que atualmente cursa licenciatura em artes cênicas. Em entrevista concedida por e-mail, o escritor conversa sobre sua participação no prêmio, suas influências literárias, racismo, empoderamento, literatura e cultura negra contemporânea. Confira a seguir a entrevista.


Malê: O que te estimulou a participar do Prêmio Malê de Literatura?


Jhow Carvalho: Soube do prêmio através de um amigo, em um grupo no facebook, fiquei curioso e fui acessar o site do prêmio, pensei que algum dos textos que eu escrevi poderia se encaixar. O prêmio me fez perceber que eu tinha uma produção literária que não compartilhava, então foi uma possibilidade de compartilhar meu trabalho, revisitei todos os textos que tinha feito e cheguei a conclusão que alguns deles precisavam ser compartilhados. Nunca havia participado de outros prêmios, nem havia cogitado essa possibilidade nem de longe.


Malê: Havia uma expectativa de estar entre os finalistas?


Jhow Carvalho: Não havia expectativa de estar entre os finalistas, muito menos de ganhar o primeiro lugar, entretanto escolhi um conto que acho bem feito, achar que um conto está bem feito depende muito do momento da vida em que estou, o conto Mãe preta é um conto que escrevi no ano passado e quando li, vi que para mim, enquanto autor, continuava atual, trabalhei nele, acredito que enviei o meu melhor conto.


Malê: Como começou seu envolvimento com a leitura literária?


Jhow Carvalho: Bom, eu fui uma criança que demorou muito para ser alfabetizada, aprendi a ler e a escrever no final da segunda série, todas as pessoas da minha sala já sabiam, eu era filho único, morava só com minha mãe, então ficava muito tempo sozinho em casa, enjoei dos meus brinquedos cedo, havia biblioteca na escola e no bairro, resolvi pegar um livro para ler e gostei, me lembro que o primeiro livro que li foi a Ilha Perdida, da Maria José Dupré, o livro é da série vagalume, uma coleção mais antiga que tinha outros livros da série na quarta capa, então eu tinha a meta de ler toda a série vagalume, eu lia os livros que estavam na quarta capa na ordem, não terminei a série vagalume, porém li boa parte dos livros, acredito que os 20 primeiros livros que li foram da série vagalume.


Malê: E a escrever literatura? Como foi seu envolvimento com a escrita literária até a inscrição no prêmio?


Jhow Carvalho: Comecei na adolescência, não sei bem com que idade, meio por brincadeira, demorei bastante para escrever com a intenção de publicar, eu lia muito, então às vezes escrevia, escrevia em blogs quando era adolescente, comecei uma produção de diário. Como escrevi sempre por brincadeira e sem a intenção de publicar nunca divulguei que escrevia, inclusive estou divulgando apenas agora, o máximo que acontecia era ler textos para amigos mais próximos e alguns diziam que eu escrevia muito bem. Não participo de coletivo, grupo ou sarau literário, mas sempre trabalho com teatro e dança, o que me deixa mais à vontade para escrever, entretanto ultimamente tenho conhecido muitos autores negros em São Paulo, por isso estou pensando em organizar uma publicação coletiva desse pessoal, ou promover um sarau na região oeste da grande São Paulo, por Barueri, Osasco, Carapicuíba ou Jandira, cidades em que cresci.


“Em geral gosto mais de escritoras do que escritores, tenho momentos em que a Cora Coralina me influencia muito e Quarto de Despejo, também foi uma obra que me impactou e transformou muito minha produção literária, preciso inclusive me aprofundar na obra de Carolina Maria de Jesus. ”


Malê: Você percebe a influência de algum autor (a) nos seus textos?


Jhow Carvalho: Eu sempre li de tudo, mas há algumas obras que acredito que possam ter me influenciado, tive uma fase de paixão pela Clarice Lispector em que a li muito, depois tive uma fase Machado de Assis, depois me apaixonei pela Insustentável leveza do ser do Milan Kundera e pelo Avalovara do Osman Lins, as minhas influências variam, mas dos citados até agora Clarice me influencia há bastante tempo. Em geral gosto mais de escritoras do que escritores, tenho momentos em que a Cora Coralina me influencia muito e Quarto de Despejo também foi uma obra que me impactou e transformou muito minha produção literária, preciso inclusive me aprofundar na obra de Carolina Maria de Jesus.


Malê: Como você vê no mercado literário o espaço para os autores negros?


Jhow Carvalho: Acredito que o mercado literário assim como todos os espaços são desiguais para negros e brancos e se especificar a questão chegamos a um contexto cada vez mais complexo, se colocarmos junto, identidade de gênero, sexualidade, classe social, entre outras opressões, a coisa fica mais funda. Entretanto, nem só de dor e sofrimento viveu e vive a população negra, entendo de uns anos para cá a literatura como uma ferramenta muito potente, pois temos nos representado, falado das nossas dores e das nossas questões, eu mesmo fui formado lendo autoras e autores brancos, quando são negros essa identidade é escondida, eu fui descobrir que o Machado de Assis era negro quando houve a polêmica do comercial da Caixa Economia Federal que colocou o Machado de Assis branco, e a população negra reivindicou seu merecido espaço, acredito que ações como o prêmio Malê, os Cadernos Negros ou a Coletânea Negrafias contribui para que as crianças e jovens negras e negros saibam que nós pretas e pretos produzimos literatura e falamos de nossas realidades.


Malê: Existe uma cena literária negra muito pulsante e criativa, articulada por pequenas editoras, saraus, encontros e coletivos. Qual seu contato com esses movimentos e autores?


Jhow Carvalho: Tenho lido textos de autoria negra, os Cadernos Negros e Negrafias que acabei de citar são livros que gosto muito e foram muito importantes. Gosto muito de ler a Cidinha da Silva. Uma amiga fez um trabalho de conclusão de curso, atualmente pesquisa de mestrado, chamada Quilombo Mulheres Negras, que tratava os saraus de periferia como espaço de empoderamento da mulher negra, a partir do trabalho dessa minha amiga, Mirella Santos Maria, tive contato com diversas autoras, além disso, há também a galera jovem que publica no facebook, o Marcelo Ricardo, lá de Salvador, que também é finalista deste prêmio e é brilhante, o Lúcio Mauro, aí do Rio de Janeiro, que quem sabe escrevamos juntos um dia, o Warley Noua, de Guarulhos, que a qualquer momento pode deixar uma poesia no seu inbox, e a Jennifer Ernesto (Jê Ernesto), do Grajaú(SP).


Malê: O Prêmio Malê de Literatura teve como inspiração aumentar a visibilidade positiva dos jovens negros, entendo que as representações mais populares destes jovens não são positivas, você já se sentiu afetado pelos estereótipos formulados para jovens negros e negras?


Jhow Carvalho | Foto: Júnior Ahzura

Jhow Carvalho: Acredito que a primeira preocupação de todo jovem negro é manter-se vivo, tanto que é necessária uma campanha da Anistia Internacional para dizer a sociedade que as nossas vidas são importantes, acho muito triste inclusive que esse genocídio da juventude negra e também da população negra como um todo também seja simbólico, quem nunca conheceu uma pessoa negra com sua saúde mental abalada pelos traumas do racismo? Há uma representação estereotipada do jovem negro como criminoso, às vezes vejo que muito pouco se espera deste jovem, espera-se sempre uma condição de inferioridade. Um dos casos de racismo que mais me afetou foi ver que gente corria de mim na rua à noite, eu não entendia, só depois que tive contato com o movimento negro percebi que a única resposta para questão era o racismo.


Malê: De maneira geral como você vê o preconceito racial no Brasil?


Jhow Carvalho: Pessoas brancas perguntam com facilidade para pessoas negras, você já sofreu racismo? É uma resposta óbvia, para quase toda pessoa negra, mas pessoas brancas não perguntam a si mesmas, quando eu fui racista. A maioria da população branca se incomoda em assumir que é racista, mas são essas pessoas que corriam de mim na rua escura à noite, são essas pessoas que seguram a bolsa mais forte e mais perto de si no ônibus, e não conseguem perceber, de tão naturalizado, que isso é racismo. Quando a população branca assumir que sim, somos racistas, queremos combater isso, teremos alguns avanços quanto ao racismo no Brasil, a Grada Kilomba, fala que o processo de racismo passa pela negação, momento em que estamos quando falamos do racismo brasileiro, para a culpa, há sim que se ter culpa de um passado de colonização e escravização que proporciona um futuro de privilégios, a vergonha, ser racista é sim uma atitude vergonhosa, porém potente para provocar mudanças estruturais, passados a negação, a culpa e a vergonha, chegamos finalmente ao reconhecimento. Concordo muito com a Grada quando ela diz que racismo é um problema da população branca e ponto final, afinal nós pessoas negras temos outras preocupações, curar nossos banzos, nos representar, como diz uma amiga minha Melissa Freitas, era só o que me faltava, sofrer racismo e ter que resolver isso sozinho. Às vezes penso que a branquitude vê a potência que nós povo negro temos e treme na base, basta ver os incômodos causados quando começamos a acessar as universidades, a branquitude precisa o tempo todo se afirmar enquanto modelo de beleza, de sucesso, de inteligência, para que nós nos sintamos inferiorizados.


“Quando me dei conta que esperavam pouco de mim, isso demorou muito tempo para acontecer, ficou muito escuro na minha cabeça que ocuparei todos os espaços em que a branquitude não aceita e não assume os corpos negros, é necessário que nós jovens negras (os) saibamos a potência que temos, é necessário sim lembrar a nossa resistência, é necessário lembrar de figuras negras notáveis, é necessário de lembrar de Madame Satã, Vera Verão, Helenira Resende, Malcom X e toda a representação negra que nos empodere, acredito que nós enquanto jovens negros temos que ouvir e repetir as palavras de Malcom X, de ocupar e estar presente em todos os espaços, e eu disse todos os espaços.”


Malê: Costumamos imaginar que um bom escritor possui a qualidade de ter um olhar apurado e democrático para o seu tempo, para as relações e as culturas e o quanto isso pode ser substância para personagens e enredos... Culturalmente como você se alimenta, fale um pouco dos seus gostos culturais?


Jhow Carvalho: Sou muito ligado a espetáculos teatrais e espetáculos de dança, atualmente desenvolvo um trabalho de conclusão de curso sobre a história do teatro negro contemporâneo na cidade de São Paulo, parto do trabalho de três grupos notórios na cidade, são Os Crespos, Capulanas CIA de Arte Negra, e Coletivo Negro, tenho ido bastante ver esses grupos, sou muito ligado à música, embora vá a poucos shows, sou daqueles que baixa a discografia de artistas e fica ouvindo, estou numa fase de Jovelina Pérola Negra e Clementina de Jesus, aconselho que ouçam, Jovelina me tirou de uma badterrível, depois de um relacionamento abusivo, sorriso aberto foi fundamental. Sou viado, então gosto muito da cena que surgiu ano passado em São Paulo, que é uma cena LGBT preta, curto muito ir em festas como a Batekoo daqui de São Paulo, que acabou de fazer um ano, a Dont Touch My Hair e a Wine, e os rolés que os coletivos de universidades fazem. Em relação a eventos estou numa fase em que os eventos de temática negra me atraem, seja sobre intelectualidade, beleza, ou um rolé para mexer a bunda, onde tiver gente preta, principalmente as mina, as sapatão, as trans, as travesti, as guei, vão ser lugar onde quero estar.


Malê: O que o leitor pode esperar do seu conto? Em que situação ele foi criado?


Jhow Carvalho: Em agosto do ano passado, houve uma chacina na região oeste da grande São Paulo, nas cidades de Barueri e Osasco, eu morava em Barueri, minha avó mora em Osasco, inclusive um dos lugares que aconteceu a chacina é caminho do ônibus que pego para a casa dela, quase inclusive fui para a casa dela, Exu me disse para não ir, na semana da Chacina, sexta-feira ouve um aviso de toque de recolher, então fiquei ilhado em casa, lembrei de várias coisas que tinha vivido e de vários relatos sobre tudo de minhas amigas que são mães sobre situações parecidas como essas, escrevi para não enlouquecer. É um conto doído, mas com uma grande pitada de esperança. É um conto que fala sobre vida e resistência.


Malê: Deixe um recado para os leitores e interessados pelos livros da Editora Malê.


Jhow Carvalho: Quero dizer que comecei a escrever porque não me via e se quero escrever sobre um assunto e não há nada escrito eu escrevo, porque escrita é arma, escrita é poder. Então é um espaço necessário de ser ocupado, espero que as pessoas negras reflitam sobre si da perspectiva da potência, quando descobrimos tudo que fizemos e resistimos e descobrimos de tudo que fomos e somos capazes. Espero então que cada vez mais tenhamos outros referencias. Às leitoras e aos leitores, desejo que suas histórias sejam preservadas, para que sejam contadas e recontadas para as (os) que depois virão, espero que todas e todos sempre escrevam as narrativas de suas vidas em primeira pessoa, espero que não escrevamos histórias únicas e que possamos, cada vez mais criar e recriar novas narrativas. E no mais, Poder Para o Povo Preto, Liberdade para Rafael Braga, Salve as minas pretas por sua força e resistências, vocês são rainhas. Salve as trans pretas, salve as travestis pretas, salve as lésbicas pretas, salve as monas pretas e salve os homens pretos.



* O livro Letra e tinta: 10 contos vencedores do Prêmio Male de Literatura - jovens negr@s será lançado no dia 24 de setembro, no Rio de Janeiro.


Por Vagner Amaro. 17 de agosto de 2016.


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