Conheça Helena dos Santos, vencedora da edição 2017 do Prêmio Malê de Literatura.

Autora do conto Quixote, o “quirubim” do Sertão, Helena é pedagoga, formada pela Universidade do Estado da Bahia. Nesta entrevista ela fala sobre livros, leitura e literatura e conta sobre um projeto literário que começou com recursos próprios, “O que tem atrás da porta?”. O projeto visa contar histórias da Literatura Africana, Negra e Indígena Brasileira, de modo acessível, para participação de pessoas com deficiência.

Malê: Como você soube do Prêmio Malê de Literatura? O que te motivou a se inscrever?

Eu soube do Prêmio pelo Facebook, tenho alguns colegas que são escritores e postaram nas redes sociais deles o link para a página da Editora. Quando li o edital, pensei: “Por que não?” (risos). Não tinha grandes pretensões, já tinha participado de outros editais culturais e não tinha sido aprovada. Estava um pouco desanimada, contudo, a curiosidade me estimulou a participar e o texto inscrito, na minha opinião, precisava ser lido por outras pessoas. Malê: Como começou seu envolvimento com a escrita literária? E com a leitura literária?

Sempre gostei muito de escrever. Acho isso bem estranho se consideramos que desde os sete anos eu escrevo e muitas vezes, ficava horas nesta atividade, esquecendo até de brincar. Com nove anos já fazia poemas, canções, pequenas histórias.Meus pais gostavam e elogiavam muito, mas, os pais são suspeitos para julgar a produção dos filhos.

Só que ao contrário da escrita, ler para mim era uma chatice, detestava. Fui educada em escolas públicas que não incentivaram o gosto pela leitura. Tive poucas professoras de Língua Portuguesa que se preocuparam com isso.


Minhas primeiras experiências com a literatura foram com a minha madrinha, Luciene, que me presenteou com um imenso livro clássico de conto de fadas e com o meu pai que sempre acompanhou este interesse pela escrita e como incentivador, me deu o primeiro livro sem príncipe: Alice no país das Maravilhas (que mais tarde recriei por meio de um Prêmio vencido na categoria infantil como: Alice no Tecnomundo, o país dos personagens – publicado pela EDUNEB). Contudo, foi quando morei em uma cidade do interior da Bahia, chamada Iaçu, com minha avó paterna, Marlene Azevedo, minha grande musa inspiradora, que passei a ler bastante. A Biblioteca Municipal de lá é fantástica e a bibliotecária, muito simpática, emprestava inúmeros livros. Neste local li toda a coleção de Jorge Amado e Dias Gomes, uma boa parte da coletânea de livros indígenas infantis de Daniel Munduruku, alguns exemplares de Raquel de Queiroz e os clássicos de Machado de Assis. Estava no Ensino Superior, tinha 20 anos e foi nesta cidade que tive meu grande encontro com a literatura brasileira.

Malê: Algum escritor(a) te inspirou a escrever. Fale sobre os autor (a) s que você mais gosta de ler.

Como comecei a gostar da escrita muito antes da leitura, não tive influências de escritores e escritoras. Era muito mais o apoio dos meus pais. Entretanto, depois de viver em Iaçu e ler mais de 120 livros da Biblioteca Pública local, as maiores inspirações para mim passaram a ser os escritores negros.

Tenho Machado de Assis em alta estima, a maneira como ele escreve é fantástica. O sarcasmo e a maneira prosaica como se expressa é incrível e isto para mim é inspirador. Lima Barreto é outro autor que amo e tenho alguns textos dele no meu coração. As frases: “Nem todas as crianças vingam”, de Pai contra Mãe, de Machado e “Não somos nada nesta vida”, de Clara dos Anjos, do Barreto, para mim são como bússolas, pois, mostram que temos de superar o racismo individual, coletivo, institucional e estrutural existente no Brasil pós-abolição e eu, enquanto cidadã faço parte desta força de superação e combate. Todavia, regozijo-me mesmo quando leio Carolina Maria de Jesus e Quarto de Despejo, Casa de Alvenaria, Provérbios e tantos outros sopros de felicidades que ela escreveu (inclusive tenho uma página dedicada a ela: Somos todos Carolina de Jesus).


Amo e choro muito com os textos das escritoras Geni Guimarães, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves (minha professora de Escrita Criativa no curso gratuito aqui em Salvador) e tantas grandes escritoras negras com as quais me identifico racial e etnicamente. Elas me representam enquanto mulher negra, de periferia e revolucionam a escrita afrofeminina com uma delicadeza e uma verdade únicas. Se puder fazer um pedido a Deus é o de chegar a esta qualidade de escrita, porque estas mulheres são as mestras, especialmente a Carolina.

Malê: Como você vê a posição ocupada pelos autores negros no meio literário? Atualmente tenho batalhado para publicar um livro e tenho tido uma imensa dificuldade de encontrar aqui na Bahia editoras que aceitem o projeto, além dos custos altíssimos. Eu vejo que temos hoje diversos escritores, mas, o nicho do mercado editorial está muito centrado no eixo Rio-São Paulo, noto com isto, que ser escritor negro no Nordeste é ainda mais difícil do que ser escritor negro nos demais locais. No entanto, percebo uma movimentação literária forte de novos autores, colegas inclusive, que participam de editais culturais promovidos pelo município de Salvador ou pelo Governo do Estado e vem financiando suas publicações desta forma. Porém, ainda há muito que fazer, levando em consideração que mais de 90% dos autores renomados no Brasil são brancos, o que não representa a nossa diversidade racial, comprovada no “boom” dos saraus, nos coletivos de poetas das favelas, dos jovens escritores majoritariamente negros e na parcela talentosíssima e etnicamente identificada das sociedades indígenas com fortes representações como: Daniel Munduruku, Juvenal Payayá e Kanátyo Pataxó.

Além disto, vejo muitos autores já aclamados pela crítica se valer da temática das minorias para vender seus livros, como se falar sobre a realidade do negro sem vivê-la ou senti-la fosse apenas uma oportunidade a mais para “descolar um trocado”.

Malê: Qual a sua formação, você trabalha com o que? Sou Pedagoga formada pela Universidade do Estado da Bahia, e atualmente sou discente do Curso de Especialização em Estudos Étnicos e Raciais do IFBA – Salvador e me encontrei nas pesquisas sobre literatura brasileira e racismo. Além disso, sou servidora pública em uma escola municipal de Lauro de Freitas, Bahia, todavia, o que realmente amo e para o que me dedico profundamente é a atuação como contadora de histórias.

Comecei em 2016, com recursos próprios e na busca eterna por financiamento/parceira, o Projeto literário: O que tem atrás da porta? O projeto visa contar histórias da Literatura Africana, Negra e Indígena Brasileira, de modo acessível, para participação de pessoas com deficiência e o título do projeto é uma brincadeira para atrair a atenção das crianças em diferentes escolas públicas nas quais atuo.


Conto histórias de distintas sociedades indígenas, de autores africanos, narrativas sobre a valorização cultural das populações negras, da diversidade pluriétnica brasileira e realizo cine-debates com vídeos e curtas produzidos por cineastas indígenas e/ou negros para formação de professores da rede pública de ensino.


O projeto atua na construção identitária das crianças e adolescentes e apesar de não receber incentivo público e/ou da inciativa privada, continuo contribuindo como posso para combater o racismo e para promover a equidade de gênero, raça, credo e inclusão social das populações invisibilizadas no Brasil. Esta iniciativa é desenvolvida com o auxilio de voluntários, amigos e da minha família e todos os interessados podem acompanhar as intervenções na página do Facebook: O que tem atrás da porta?

Malê: Como foi o processo de escrita do conto vencedor, do que ele trata?

Foi muito interessante, porque estava finalizando minha graduação em Pedagogia com o tema: A literatura brasileira e a construção da identidade negra e ao mesmo tempo fazendo um curso de extensão na UNEB para contadores de histórias. No penúltimo dia do curso, a professora solicitou que fizéssemos uma história a partir de alguns elementos dentro de uma caixa, mas, não poderíamos abrir previamente a caixa para saber o que tinha dentro. Deveríamos pegar “no susto”.


Foi então que encontrei um pato com asas, da Mcdonalds e dois ímãs de geladeira, um em forma de tartaruga e o outro em forma de cacau. A partir destes três elementos criei a história: Quixote, o “quirubim” do Sertão, com linguagem próxima a de cordel, por admirar o Bule Bule, grande repentista baiano e a cordelista e professora Salete Maria, da UFBA.

A narrativa gira em torno da realidade do Sertão baiano, trazendo para o centro um menino negro que quer ser anjo, a recusa social porque “não existe anjo negro”, a descrença da família, a grandeza dos Orixás e a persistência de espírito de Quixote.


E preciso dizer que as asas que aparecem na história representam a liberdade desejada pelo personagem, à mesma liberdade que os negros pobres do Brasil desejam para viver sem medo e sem a incerteza do amanhã diante das violências que sofrem. Estou falando de uma liberdade ancestral, uma liberdade para ser feliz.


Malê: Você pretende construir uma carreira profissional como escritora de literatura?

Estou entrando em contato com muitas editoras baianas independentes para publicar meu primeiro livro, já entrei em contato com algumas, mas, ainda não consegui nenhuma resposta. O que não me desanima, pois a literatura mudou a minha vida em momentos muito difíceis e desde os meus 19 anos tenho textos publicados em prêmios literários, incluindo o Prêmio Igualdade de Gênero – CNPq e o Nadja Nunes – UNEB.


Contar histórias para mim é uma arte e encantar tantas crianças é algo maravilhoso, somado a isto escrever e incentivar outros pequenos a fazer a mesma coisa para mim é gratificante. Sinto-me a própria Carolina de Jesus, não sei quando, mas sei, meu Quarto de Despejo vai ser publicado. Ela é minha inspiração!


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