Alain Mabanckou dá voz a um bicho assassino em 'Memórias de porco-espinho'

Premiado autor franco-congolês lança sua segunda obra no Brasil

 

Alain Mabanckou, escritor franco-congolês - HermanceTRIAY / Divulgação


 

RIO - “Em todos os contos africanos, os animais são tão inteligentes quanto os homens — às vezes, até mais inteligentes do que nós.” Quem explica é o escritor Alain Mabanckou, e com conhecimento de causa. Antes de se tornar um dos mais importantes autores da França, para onde se mudou com 22 anos, o congolês ouviu, desde pequeno, muitas fábulas sobre bichos espertos e perspicazes em seu país natal.

 

Em “Memórias de porco-espinho”, que acaba de ganhar uma edição brasileira da Malê (com tradução de Paula Souza Dias Nogueira), o escritor resolveu revisitar essa tradição oral de sua infância. Publicado originalmente em 2006 na França, e vencedor do prestigioso Prêmio Renaudot daquele mesmo ano, o romance brinca com uma ideia ancestral: a de que todo ser humano tem um duplo animal.

                                                                     ‘Na minha infância, todos nós adorávamos Pelé e tínhamos                                                                                                                                 certeza de que ele havia nascido no Congo. Então, meu livro                                                                                                                              pode ser uma chamada para essa herança longínqua que                                                                                                                                  celebrava a humanidade, apesar das dores’

 

                                                                                            ALAIN MABANCKOUAutor de “Memórias de porco-espinho”

 

CHACOTA COM HUMANOS

 

Espécie de thriller perspectivista, o romance é narrado por um porco-espinho assassino, que ataca todos que passam pelo caminho através do seu alter ego humano, o jovem Kibandi. Ambos têm o mesmo corpo, a mesma respiração, e só podem existir juntos. Por isso, quando Kibandi morre, o bicho usa as poucas horas que lhe restam para tentar mudar a sua imagem.

 

— A humanidade deveria aprender com a resistência dos animais, pois muitos deles não soltam nenhum grito mesmo quando sofrem ou quando são maltratados — argumenta, em entrevista por e-mail, o autor, que dedica a publicação à sua mãe e ao seu “protetor”, o “Escargot cabeçudo”. — Nesse livro, tento me apoiar em meu imaginário congolês, de africano: a fábula, o conto, o sobrenatural são elementos que marcaram minha infância. É uma homenagem a essa cultura densa e rica da minha terra natal, do meu continente de origem.

 

Mabanckou evoca dois tipos de duplo: o “pacífico”, que protege seu mestre e busca o bem; e o “nocivo”, como o tal porco-espinho, que põe em prática os impulsos mortíferos de seu mestre. Como nas fábulas de La Fontaine, outra de suas fontes de inspiração, o escritor dá voz aos bichos (e também a uma árvore, o Baobá). Cabe a eles, com muita ironia e chacota, avaliarem o comportamento humano, deixando bem claro que não somos o centro do universo. Enquanto o espinhoso narrador tira sarro da nossa “pretendida inteligência”, paira uma pergunta sem resposta: “Quem entre o Homem e o animal é verdadeiramente uma besta?”

 

— O que me interessa é esse universo invisível, essa outra face das coisas — explica o autor, que já foi elogiado por nomes do calibre do Nobel de literatura Jean-Marie Le Clézio. — A realidade só está completa se ela leva em consideração as coisas que não vemos ou as coisas que alguns acreditam ser inverossímeis. A figura do duplo mostra que há muita coisa a descobrir para apreender nossa existência, e não são as certezas ou a Razão que governa o mundo, mas a estranheza, o inverossímil. É, portanto, um livro que lembra como nós, congoleses, interpretamos o mundo e tentamos explicar os mistérios da vida.

 

O próprio Mabanckou é marcado pela duplicidade. Com cidadania franco-congolesa, ele se divide entre Paris e Santa Monica, no estado americano da Califórnia, onde dá aulas de literatura. Apesar da distância, ele garante que não se sente desnorteado e que continua expressando as “angústias” de seu continente. Vários de seus livros, como “Demain j'aurai vingt ans” (relato semi-autobiográfico no Congo dos anos 1970) ou “Verre cassé” (reunião de perfis pitorescos coletados num bar), se passam na África.

 

PASSARELA ENTRE DIÁSPORAS

 

Na capital francesa, mantém um apartamento em Chateau-Rouge, bairro conhecido por sua forte presença africana, que ele define como “uma pequena África perdida na Europa”. Já na cidade californiana, sente-se mais livre para “tentar vários caminhos”.

 

 

Defensor de uma literatura sem fronteiras, Mabanckou vê passarelas entre as diferentes diásporas africanas — e acredita que os leitores brasileiros poderão encontrar em seu livro realidades do nosso imaginário.

 

— A África está no Brasil, e acho que tenho uma chance de falar com pessoas próximas de mim — diz o autor, que já lançou por aqui o infantil “Irmã estrela” (FTD, 2013) e foi um dos convidados do festival Black2Black de 2015. — Lembro que, na minha infância, todos nós adorávamos Pelé e tínhamos certeza de que ele havia nascido no Congo. Então, meu livro pode ser uma chamada para essa herança longínqua que celebrava a humanidade, apesar das dores, sofrimentos e violências da História e da humilhação do homem negro pelo Ocidente.

 

 

"Memórias de um porco-espinho”

Autor: Alain Mabanckou. Editora: Malê. Páginas: 130. Preço: R$ 40.


 https://oglobo.globo.com/cultura/livros/alain-mabanckou-da-voz-um-bicho-assassino-em-memorias-de-porco-espinho-22082844#ixzz52fQjc2pq 

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