Os espinhos do tempo

Numa prosa que recorda o realismo fantástico latino-americano, Alain Mabanckou faz uma análise mordaz da condição humana.

O escritor franco-congolês Alain MabanckouAdrian Dennis/AFP/Getty Images

Mabanckou, Alain Memórias de porco-espinho TRAD. Paula Souza Dias Nogueira

Malê • 130 pp • R$ 40

É na chave do código narrativo da fábula que o leitor abre a porta do romance Memórias de porco-espinho, do franco-congolês Alain Mabanckou. O livro inteiro é o bem-humorado monólogo de um porco-espinho diante de um baobá. Ele, o bicho, tem 42 anos, não poderia ter passado dos vinte e deveria ter morrido anteontem. Estupefato com o atraso da própria morte, sente a necessidade vital de narrar sua história e escolhe como ouvinte uma árvore respeitosa e silente, fincada no solo sagrado da África.


No contexto fundador das culturas e literaturas africanas, o eixo que conduz o romance é a paródia da crença ancestral de que todo homem tem um animal como seu duplo pacífico ou duplo nocivo, dependendo da natureza do bicho e da pessoa. A conexão acontece após a ingestão de uma bebida iniciática, o mayamvumbí. A ligação do porco-espinho narrador é com o humano Kibandí, filho de um pai cruel e de uma mãe que derrama força e doçura no momento em que a tensão do romance mais precisa de alívio.


Não há exatamente um começo: as primeiras palavras estão em letras minúsculas e o ritmo da conversa já deixa a sensação de que a ladainha existia antes do livro. A fala antes da letra, a oralidade como origem. Aí está o duplo fora da diegese, representado no trabalho primoroso de Alain Mabanckou na construção desse romance.


De um lado, o autor afirma, em entrevistas, que partiu de um repertório de mitos e lendas conhecidos na sua infância no Congo. Que no texto homenageia a sua terra e as crenças do seu lugar, do conto africano, a sua voz matriz. Isso pode levar ao erro, ainda tão comum, de uma associação direta e mal arranjada, como se a obra literária que parte de uma memória coletiva tivesse a função reduzida de mero registro.


Por outro lado, com os olhos atentos ao texto, o narrador não é inocente, tampouco confiável como costumam ser os narradores no universo das fábulas, sempre incumbidos de apresentar, ao fim, uma moral edificante. Publicado em 2006, Memórias de porco-espinho também foge da natureza atemporal das fábulas e lendas. A certa altura, as coisas ganham data, ares contemporâneos e ficam mais perto dos nossos dias.


Essa marcação de tempo chega com um personagem específico. Dentre os seres vivos e mortos, mágicos e normais, homens e bichos, surge um branco chamado Amedê. Com sua caixa de livros e seu repertório de histórias de outros mundos, ele conquista as nativas lendo romances. O porco-espinho diz ao Baobá: “Lhe asseguro que os seres humanos se entediam tanto que precisam desses romances para se inventar outras vidas”. Ao descrever as leituras que ouviu do homem, ele resume O velho e o mar, explica o que é Macondo, cita o tapete voador de Aladim, apresenta o velho para quem ninguém escreve e que se distrai com um galo de briga e ainda elogia e nomeia Horacio Quiroga.


A citação direta de Gabriel García Márquez, por exemplo, pode apontar para a associação natural entre o realismo mágico latino-americano e a literatura africana. O curioso é que os melhores autores dos dois mundos, como o próprio García Márquez, disseram ter escrito as suas cenas mais insólitas inspirados em fatos do cotidiano. Acontece o mesmo nas cidades pequenas do Brasil, nos recônditos das Minas Gerais de Murilo Rubião, na Antares de Érico Veríssimo. Não há batismo nem escola literária que deem conta de nomear o mistério, ainda mais nas terras vastas e antigas do continente africano.


Outro trunfo é o humor, que trata o enredo rocambolesco com a graça dos bons contadores de história.

A leitura de Memórias de um porco-espinho evoca ainda alguns ecos menos explícitos: dos duplos de Borges; da relação entre homens e orixás na obra de Jorge Amado e da lagartixa albina de José Eduardo Agualusa, que também empresta sua voz para contar a história do seu duplo, o albino Félix Ventura. Ecos literários são os bônus de cada leitor, pessoais e intransferíveis. Fazem parte do jogo.


Graça africana

Outro trunfo é o humor, que trata o enredo rocambolesco com a graça e a oralidade dos bons contadores de histórias. O narrador precisa de menos do que dez palavras para apresentar os componentes principais de sua personalidade, sua ironia fina e análise mordaz da condição humana. O porco-espinho verborrágico não está ali apenas para apresentar fatos e cenas. Seu gosto também está em comentar sobre os homens com a perspicácia de quem está acima de tantas limitações.


O léxico do imaginário africano está posto com propriedade: temos defuntos que podem revelar seus assassinos sacudindo os caixões, um bebê fantasma que vinga a sua morte, feitiçaria, dialetos, divindades, territórios, bichos, plantas. Juntando essas pontas — tradição, recriação, oralidade, intertextualidade e humor —, a chegada de Alain Mabanckou em território brasileiro tem grandes chances de dar muito certo e conquistar leitores.


Memórias de porco-espinho ganhou o prestigiado prêmio Renaudout, colocando Mabanckou ao lado de autores como Daniel Pennac, Scholastique Mukasonga, Georges Perec. A Malê prepara ainda Verre cassé, outra obra premiada de Mabanckou. Em 2013, a FTD lançou Irmã estrela, que fala da morte para crianças a partir das tradições africanas. Mabanckou tem uma lista de livros extensa e diversificada, assim como suas áreas de atuação. Literatura francófona, racismo, desterritorialização e poesia são alguns dos campos de reflexão e criação.


Apesar de manter o tom irônico quase o tempo todo, o narrador porco-espinho também tem seus momentos de ternura diante dos homens. É bonito quando diz que “o céu estava baixo, tão baixo que um ser humano podia arrancar de lá alguns pedaços de nuvem sem levantar o braço”. Há poesia e riso na voz de um porco-espinho. Quem poderia imaginar?


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