“Contos Escolhidos”: tensões necessárias para a literatura brasileira

13 Feb 2017

    De Gregório de Matos, passando pelo Romantismo e Modernismo, a Marcelino Freire, a literatura brasileira é farta em estereótipos para as personagens negras, vide as Bertolezas, Negrinhas, Rita Baianas, Gabrielas e tantas outras, cabendo destacar a infertilidade e ausência de maternidade das mulheres, a falta de núcleo familiar, chegando ao extremo de negação de características fenotípicas negras como a escrava Isaura. À personagem masculina, a boçalidade, o vínculo à preguiça e ao banditismo são frequentes. Sendo assim, temos na literatura brasileira canônica a marca intensa do negrismo e suas imagens pejorativas dos negros, para além da exclusão sistemática das autorias negras do grande mercado editorial, das livrarias, feiras e cadernos literários, principalmente quando esses autores trazem para o texto literário a questão racial.

 

    A partir de um canône homogêneo, formado por escritores, em sua maioria, homens e brancos, que a literatura negra procura trazer outras dicções para o texto literário, revelando uma polifonia de vozes ainda distante para um público mais amplo, especializado ou não. A literatura negra, uma vertente da literatura brasileira, apresenta as autorias negras expondo suas subjetividades, seus pontos de vista a partir da vivência de ser negro no Brasil, reelaborando histórias, atualizando experiências e discursos nos quais a violência da escravidão e do pós-abolição impedem de vir à tona.

 

 Luiz Silva, o Cuti, destaca-se na literatura negra. Desde 1978, constrói uma carreira que passa por gêneros como poesia, conto, teatro e ensaio. Cuti foi cofundador da série “Cadernos Negros” (1978) e do coletivo literário “Quilombhoje” (1980). É Mestre em Teoria da Literatura e Doutor em Literatura Brasileira.

 

    As narrativas de “Contos Escolhidos” (Editora Malê) mostram percepções aguçadas para as tensões das nossas relações raciais, a partir de um ponto vista negro no qual a criatividade e o apuro com a linguagem sinalizam desconcertos aos discursos de autoengano da democracia racial. São textos que navegam entre a oralidade e a escrita, com soluções surpreendentes para embates raciais do cotidiano – que atingem as relações afetivas, inclusive –, no qual a discriminação aos negros é estruturante.

Tem-se nesses contos a inventividade narrativa para reelaborar discursos sobre o negro da mesma forma que pretende ser uma voz dos negros e para os negros, e alia cuidado estético e discurso ideológico numa prática textual que se quer sociopolítica.  Destacam-se aqui alguns aspectos desses contos, tais como em “Incidente na raiz”, no qual a protagonista vive a ilusão do ideal de branqueamento com todo o sofrimento, esforço físico e dinheiro gasto para alterar suas características fenotípicas trazendo insucesso e amargura. O parágrafo inicial revela o branqueamento imposto aos negros, quando até os documentos de registro pessoal apontam a cor da pessoa: “Jussara pensa que é branca. Nunca lhe disseram o contrário. Nem o cartório” (p. 47).

 

    Em “O batizado”, o conflito se dá entre uma família de negros quando a militância de um familiar e seu processo de conscientização causa desconforto entre os seus e começa a indagar a perda das raízes negras de seus pares, sinalizando o branqueamento por que todos passam e aceitam, podendo ser escolha religiosa, nome da criança, seleção dos padrinhos ou tipo de bebida para a festa. A tensão cresce, gerando discussão e ofensas racistas com seus estereótipos nos discursos dos familiares. “Boneca” apresenta eufemismos que suavizam a linguagem racista brasileira e a insensibilidade caracterizadora de pessoas não negras quando se veem diante de clientes que desejam bonecas negras. Por outro lado, atento às contradições entre discurso e ação, o narrador mostra a indignação do protagonista com bonecas louras, mas satisfação, após missão cumprida, em beber uma “loura” gelada.

 

    A violência de uma sociedade racista e desigual marca “Não era uma vez”. A anáfora, típica do gênero fábula, desvela cotidiano violento da cidade e turbulência de emoções que um cidadão pode sentir diante do desespero. Turbulência que expande significado com a inversão da anáfora, já que a temática de maus tratos e humilhações no ambiente de trabalho é uma situação corriqueira nas vidas de pessoas negras.  “Lembranças da lição” se passa no espaço escolar racista, onde marcas associadas à escravidão provocam evasão de alunos negros em razão de seu ambiente hostil vindo de parte dos alunos não negros e da indiferença de professores, o que chama atenção para necessidade de uma educação que contemple as relações étnico-raciais. Por conseguinte, o mau desempenho dos alunos reduz as chances com a chegada da vida adulta, sendo o crime uma opção considerável.

 

 

    Essa pequena amostragem e os demais contos de Cuti revelam um projeto literário estético-ideológico ciente do processo histórico dos negros brasileiros, com respostas possíveis às condições desiguais impostas. A literatura de Cuti, e outros autores negros, expõe a necessidade de afirmação identitária contrapondo-se à identidade nacional homogênea. Nesse sentido, a literatura negra visa o tensionamento do corpus da literatura brasileira, exigindo que esta possua a dialética necessária para contemplar outros agentes étnico-raciais e textualidades negro-diaspóricas como formadores do Brasil.

 

Ricardo Riso. Mestre em Relações Étnico-Raciais (CEFET/RJ).

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