Conceição Evaristo: a literatura como arte da ‘escrevivência’

Autora cuja obra é marcada pela ‘condição de mulher negra’ lança livro de contos

A escritora, que completa 70 anos em novembro, volta com “Histórias de leves enganos e parecenças” - Gustavo Miranda

POR LEONARDO CAZES

11/07/2016 4:30

RIO - Conceição Evaristo nasceu em uma família de mulheres negras cozinheiras, faxineiras, empregadas domésticas. Segunda de nove irmãos, a escritora, que completa 70 anos em novembro, diz que na infância não viveu a pobreza, mas a própria miséria na favela do Pendura Saia, encravada no alto da Avenida Afonso Pena, área nobre de Belo Horizonte. Ali, da mãe e das tias, ouviu muitas histórias e inventou outras. A ficção era indispensável à sobrevivência, uma forma de sublimar a realidade. Essa experiência é o alimento da sua escrita ou, como ela afirma, da sua “escrevivência”.

O contato com a palavra escrita só veio no colégio. No primário, Conceição já se destacava nos clubes de leitura, lia sem gaguejar. Ao passar para o ginásio, começou uma série de interrupções. Entrava e saía da escola. Trabalhou como babá, faxineira, vendedora de revistas. Ela seguia o caminho das mulheres da sua família que tinham vindo antes dela, mas sabia que o que queria: ser professora. Terminou o ginásio, ingressou no curso normal. No início da década de 1970, formada, não conseguiu emprego em Belo Horizonte.

‘Não nasci rodeada de livros, mas rodeada de palavras.

Havia toda uma herança das culturas africanas de contação de histórias’


— Não havia concurso em Minas. Só entrava para dar aulas quem tinha o “quem indica”. Minha mãe e minhas tias tinham relações com famílias ricas de Belo Horizonte. Minha família trabalhou para parentes de grandes escritores, como Otto Lara Resende e Henriqueta Lisboa. Mas eram sempre relações de subalternidade. Nunca iam me indicar — afirma Conceição. — No Rio de Janeiro tinha concurso, e então eu vim em 1973.


A escritora fez carreira como professora do primeiro segmento do ensino fundamental na rede municipal, mas não parou de estudar. Cursou Letras na UFRJ no final da década de 1970, depois fez especialização em Literatura na Uerj, logo após ficar viúva, na década de 1980. Nos anos 1990, formou-se mestre em Literatura na PUC-Rio. E, há três anos, terminou o doutorado em Literatura Comparada na UFF, após enfrentar uma isquemia. Em todos esses espaços, era uma das poucas negras, e sempre era mais velha do que os colegas. Essa sensação de deslocamento atravessa sua escrita desde a infância.


Conceição escreve para entender o mundo e para encontrar o seu lugar nele:


— Fui uma menina e uma jovem muito curiosa. Eu via as pessoas conquistando coisas e sempre achei que tinha o direito de conquistar também. A escrita foi sendo o lugar de desaguar os meus desejos. E também a tristeza, o sentimento de injustiça que percebia, mas não sabia definir bem. Desde criança me dava angústia ver minha família trabalhando muito e não ter nada.


REFERÊNCIA PARA JOVENS AUTORES NEGROS


A superação da pobreza permitiu que lançasse um olhar crítico sobre o seu passado e a sua experiência.


— A pobreza pode ser um lugar de aprendizagem, mas apenas quando você a vence. Se não, é o lugar da revolta, da impotência, da incompreensão. E aí você não faz nada. Hoje eu vejo que a pobreza foi o lugar fundamental da minha aprendizagem diante da vida — afirma. — Minha literatura não é pior nem melhor do que qualquer outra, só nasce de uma experiência diferente da qual eu me orgulho e que não quero camuflar.


Se hoje Conceição é uma referência para jovens autores negros, ela mesma só descobriu essa literatura ao tomar contato com o movimento negro na universidade. A escritora lembra o impacto que lhe causou a leitura de “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus. A realidade descrita no livro era também a dela própria e de sua família. Depois vieram as leituras de Maria Firmina dos Reis, Lino Guedes, Oswaldo de Camargo. Num momento de explosão das lutas anticoloniais na África, caíram em suas mãos as obras de Frantz Fanon, José Craveirinha e Agostinho Neto.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/conceicao-evaristo-literatura-como-arte-da-escrevivencia-19682928#ixzz4MdggPTJx

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