Cristiane Sobral alça novos voos em lançamento pela editora Malê

A escritora Cristiane Sobral acaba de lançar o livro de contos “O tapete voador” pela editora Malê. Nesta conversa, a escritora comenta sobre as expectativas em relação ao livro, a literatura negra, as mulheres na sua literatura e a concepção de seus personagens masculinos, além de contar sobre sua formação como leitora e escritora.




Malê - O que o lançamento de “O tapete voador” representa para você?


Cristiane Sobral - Um momento de muita alegria, de colheita e reconhecimento do meu percurso na literatura desde que comecei a publicar, em 2000, são 16 anos de caminhada!


Malê - Como iniciou seu envolvimento com a escrita literária? Quais foram suas influências? Na sua infância e juventude como você fazia para ter acesso aos livros de literatura?


Cristiane Sobral - Desde a infância sonho com os caminhos da literatura e do teatro, minhas influências primeiras, meus pais, Marina e Jacy, ávidos leitores, lá na minha casa não havia muito espaço para a televisão, minha mãe evangélica gostava muito de ler, realizava cultos em casa, foram momentos de muita realidade e interpretação crítica do nosso mundo, meu pai por outro lado, leitor ávido de livros e dos jornais diários, os dois me ofereceram um ponto de vista místico e político do mundo ao meu redor. Minha mãe também era líder comunitária e a rua sempre foi um espaço de diálogo e confronto de ideias, os vizinhos, as famílias, trago tudo isso comigo na literatura, desde cedo encontrei um ambiente muito fértil e assumi um compromisso com a escrita. Sou pessoa, letra e palavra, corpo e sensibilidade, são elementos presentes na minha literatura.



Malê - Existem expressões não consensuais para a literatura produzida pelos escritores negros brasileiros, “literatura negra”, “literatura afro-brasileira”, “literatura negro-brasileira” e até mesmo uma corrente teórica que nega a possibilidade de se ter um tipo de literatura fundada pelos negros e com características próprias. Neste sentido, como você percebe a literatura que você produz?


Cristiane Sobral - Sou escritora e produzo literatura, comecei a publicar nos Cadernos Negros, (volume 23) mantido pelo grupo Quilombhoje e que tem uma importância muito grande na minha trajetória. A realidade não me basta, a literatura e o seu campo imaginário de possibilidades de fruição e humanização são campos onde decidi navegar, não creio no conceito de universalidade na literatura, a minha literatura é contemporânea e extemporânea, negra, brasileira, também são matrizes a concepção indígena do mundo, a europeia, sou fruto dessas matrizes, consciente ou inconscientemente. Literatura afro-brasileira, negro-brasileira, negra, tudo isso me contempla e mais. Quem nega a nossa existência só contribui para a confirmação do racismo nesse país, o racismo não dorme, mas estamos de pé, mais do que resistindo, anunciando a nossa existência nesse país, as nossas histórias, o nosso direito à vida, ao afeto, aos paradoxos além dos maniqueísmos de mal e bem.


Malê - Há uma tendência na sua obra em representar a mulher negra. E o homem negro? Como você vê a representação do homem negro na literatura brasileira? É um desafio escrever personagens como o Lélio, do conto de mesmo nome? Poderia comentar o conto Afrodisíaco?


Cristiane Sobral - Mulher é tanta coisa! Ainda falo pouco sobre a mulher, estou me mulherizando cada dia mais, buscando colher nas memórias subterrâneas negras, no imaginário simbólico que nos rodeia, nos nossos corpos, latentes, desejando romper o silêncio, temos muita história para contar e com outros pontos de vista além dos padrões eurocêntricos. Os homens nem sempre dominaram o mundo sabe? É preciso falar desses homens, da humanidade em alta voltagem, os homens precisam pensar sobre as suas caixas de "como ser homem", gosto de pensar no caos masculino, na explosão desses protocolos, penso na possibilidade de construir jardins depois de tudo, é preciso reinventar os universos previsíveis que atribuem protocolos únicos para as nossas relações, tudo isso me interessa. O personagem Lélio é essa loucura, essa ironia, essa revelação, o cotidiano rasurado e anunciado, as possibilidades ficcionais escancaradas e compartilhadas com o leitor. Afrodisíaco é um conto tão complexo! Lá está o homem negro e seus rótulos, mas no fundo é um grito de amor, de sensibilidade, de impossibilidade diante dos corpos produzidos pelo capitalismo e das relações possíveis em um mundo onde tudo é vendável. Augusto é um homem que pede socorro, um corpo escravizado, uma sexualidade impossível, sinônimo do fracasso social. É um texto que me afeta muito, gosto dessa afetação, de mexer com a ordem sem fazer desordem.




Malê - Patrick Chabal, em Vozes moçambicanas, fala de quatro fases abrangentes da literatura africana de língua portuguesa. Assimilação, Resistência, Afirmação e uma fase atual, que seria de consolidação, com os escritores africanos destes países buscando traçar novos rumos para a literatura que produzem e marcar os seus lugares de direito no cenário da literatura universal. Se fizermos uma aproximação com a situação dos escritores negros brasileiros, me parece que estamos ainda em uma fase de “afirmação”. Você morou por alguns meses em Angola. Poderia falar da sua percepção sobre como o país lida com a literatura produzida por seus escritores negros? E pensando no Brasil, quais são os entraves que a literatura produzida por autores negros enfrenta?


Cristiane Sobral - Encontramos registros da literatura angolana desde a segunda metade do século XIX. Nos anos cinquenta, houve o movimento literário-cultural "vamos descobrir Angola" em que já havia um despertar das consciências em relação à hegemonia colonial, mas as marcas dos padrões de dominação são marcantes, os escritores percorrem um longo caminho para a afirmação da identidade nacional, da negritude, nos anos 60 e 70 a literatura tem uma conexão com a luta de libertação de Angola, a conquista da independência, os textos destacam muito essa fase, esse comprometimento político e ideológico, muitos livros clássicos no pais foram produzidos enquanto os escritores estavam em situação de campo de batalha ou no Campo de Concentração do Tarrafal, no Cabo Verde. Algumas obras, dos anos 50 em diante estão recheadas de realismo, a literatura sempre foi um instrumento fundamental no processo de descolonização. As tradições, o modo de ser e de viver dos angolanos está muito presente nos textos.

No caso brasileiro, os autores negros existem sim, mas são marcados, com algumas exceções, pelos critérios de invisibilidade marcantes em uma sociedade racista como a nossa. É real a dificuldade de publicação, de circulação, de distribuição, de acesso aos meios econômicos, de viver profissionalmente da escrita, ainda não temos esse lugar da escrita como ofício, isso é lamentável, incide diretamente na qualidade e na continuidade das produções.


Malê - Você possui larga experiência no teatro, como atriz e dramaturga. Como essa experiência afeta a sua literatura.


Cristiane Sobral - Trago para a literatura o princípio da invenção, somos basicamente inventores, trago também o contato íntimo com a palavra, o reino da condensação, da estética da sensibilidade, o cuidado com as linhas e entrelinhas, a preocupação com a tridimensionalidade dos personagens, no teatro podemos viver quaisquer experiências e estamos muito além da realidade, isso é fantástico.


Malê - Assim como na prosa, o texto dramatúrgico também carece de maior presença da autoria negra?


Cristiane Sobral - Sim, o teatro brasileiro tem contornos eurocêntricos predominantes, as peças têm poucos personagens negros, poucos personagens femininos, não existimos nem na ficção.


Malê - Como você vê o surgimento nos últimos anos de novas companhias teatrais negras?


Cristiane Sobral - Temos registros de companhias negras no Brasil, não reconhecidas, não estudadas nos espaços acadêmicos, temos hoje grupos de teatro em todas as regiões do país, mais de 70 grupos cadastrados no Fórum Nacional de Performance Negra, mas por outro lado, poucos grupos conseguem produzir e durar na proporção das realizações do Teatro Experimental do Negro (anos 40), de Solano Trindade (anos 50), o teatro brasileiro vive tempos de reflexão no que se refere à sobrevivência e a manutenção dos grupos e Companhias, os grupos de teatro negro então, estão à margem dos recursos privados e carece de políticas públicas.


Malê - Com 16 anos de carreira literária você percebe alterações em relação a procura pelos livros de autores negros e de convites para a presença em eventos literários?


Cristiane Sobral - Ainda continuamos andando em círculos de conquistas e perdas, não é uma visão pessimista, mas os livros sobre a África e sobre os negros que circulam nas grandes editoras não tem sido escritores por autores e autoras negras, o Brasil lucra muito com a cultura negra, mas a população negra produtora dessa cultura, não lucra, não tem acesso aos meios de produção. Vivemos no país com uma das maiores concentrações de renda do mundo, os escritores são majoritariamente homens, brancos, ricos, temos muito caminho pela frente.


Malê - Como você vê a escolha do escritor Lima Barreto como homenageado da Flip 2017.


Cristiane Sobral - Acho ótima, é um dos maiores escritores brasileiros, tem uma obra vasta e pouco conhecida, sua atualidade diante das questões políticas, de gênero e diversidade de nossos dias é fundamental, mas quero ver se essa escolha vai ser suficiente para justificar a pouca participação de escritores negros na programação, estou cansada de ver a presença negra como critério de exceção. Temos que estar atentos aos perigos da nova colonização, e ao avanço dos mecanismos de opressão, que estão mais aprimorados do que nunca, o racismo não dorme.



Malê - Como tem sido a repercussão da capa do livro? Como se deu a concepção da capa? O que ela comunica?


Cristiane Sobral - O livro já está caminhando e com ousadia, o leitor tem comentado, está provocando reações diversas, não é morno. A capa é linda, tem força, o desenho salta com essa ousadia da mulher que deseja voar, que produz o seu próprio tapete, é uma criação cheia de vida do Muha Bazzila, artista que todos devem conhecer, deixo o significado para os leitores, gosto de uma literatura com mais perguntas do que respostas.


Malê - O que os leitores podem esperar de “O tapete voador”?


Cristiane Sobral - Ofereço beleza e contundência, contradições, suspiros, desejos, transformações, encontros e desencontros, humanidade enfim, personagens que erram, acertam, mas não estão passivos diante da vida e da possibilidade de vivenciar suas próprias escolhas. Tenho certeza de que os leitores farão suas próprias leituras, espero ansiosamente por isso, navego com tranquilidade em um mundo sem certezas.

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