Teatro negro em perspectiva


Ainda em 2009, quando o ator e pesquisador Marcos Antônio Alexandre realizava sua pesquisa de pós-doutoramento, ele foi buscar, em Salvador e em Cuba, aproximações e peculiaridades da cultura negra e suas manifestações artísticas, em especial do teatro negro, temática que ele vem estudando nos últimos anos. O processo e o resultado da pesquisa estão organizados no livro “O Teatro Negro em Perspectiva: Dramaturgia e Cena Negra no Brasil e em Cuba” que o professor da Faculdade de Letras da UFMG lança nesta sexta-feira (3), às 19h30, no Teatro 171.

O interesse de Marcos Alexandre pelo tema foi sendo construído “identitariamente”, como ele afirma na introdução do livro. Ele é filho de uma família de negros que, como inúmeras outras, não se via como negra e que carregava preconceitos arraigados à nossa sociedade. Ao longo de suas trajetórias acadêmica e pessoal, ele teve contato com textualidades afro-brasileiras que integram a literatura em versos, narrativas e dramaturgias, o que o sensibilizou a estudar o tema.

O livro é dividido em quatro partes, sendo a primeira construída a partir da noção de teatro negro e do conceito de “corpo pulsante”, defendido por Marcos Alexandre para falar da presença do sujeito negro. Em seguida, o pesquisador aborda os cenários que encontrou em Cuba e no Brasil. “Muitas produções cubanas ainda estão ligadas à religiosidade. Algumas cruzam a religiosidade com situações críticas do país que têm a ver como a necessidade do negro, com ele é tratado, o preconceito, a segregação ente negros e brancos”, comenta.

“Mas se há algo interessante a observar é que os dramaturgos não aceitam o termo ‘teatro negro’. Para eles, é teatro cubano. Acreditam que o termo ‘afro’ não colocaria o texto no mesmo patamar de importância que outros dramaturgos de relevância em Cuba – enquanto aqui no Brasil, há pessoas que querem demarcar o lugar do negro na dramaturgia como uma questão política e ideológica. Eu, no entanto, como pesquisador, identifico o teatro realizado em Cuba como afro- cubano”, pontua.

Já em Salvador, Marcos Alexandre aponta a existência de diversos grupos teatrais que trabalham com a corporeidade negra, mas que possuem menor visibilidade frente à projeção do Bando Teatro Olodum, companhia negra de maior longevidade na história do teatro baiano, criada em 1990, em Salvador.

Ao escrever o texto da publicação, Marcos Alexandre optou também por abordar os trabalhos teatrais que vêm sendo construídos em Belo Horizonte e que ele acompanha de perto. “A cena de Belo Horizonte mudou muito. Vale lembrar que Abdias Nascimento, com a criação do Teatro Experimental do Negro, o TEN, em Salvador, renovou e trouxe o negro para a cena, mas os espetáculos naquele momento estavam voltados para a religiosidade. E agora a cena tem novas urgências, como, por exemplo, ‘Madame Satã’, espetáculo que vai falar de outras formas de segregação do negro, como, por exemplo, a sexualidade, o empoderamento da mulher, a questão das travestis. A religião segue sendo um aspecto importante da cultura negra, mas ela já não é o tema principal abordado nessas produções”, observa.

Já no terceiro capítulo da publicação, Marcos disponibiliza a tradução da peça de Eugenio Hernández Espinosa, “María Antonia”, um texto clássico dentro da produção dramatúrgica cubana a que ele se debruçou a fim de fazer o texto circular pelo Brasil. “É um texto que dialoga com as questões do negro no Brasil, e gostaria que ela fosse montada por aqui”, conta o professor. E, por fim, na quarta parte, o livro traz entrevistas com atores, dramaturgos, diretores, pesquisadores brasileiros e cubanos sobre a cultura e o teatro.


Fonte: O Tempo


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