O lugar do negro

O debate sobre a representatividade negra no Brasil prossegue como alternativa de resistência contra o racismo. Na esfera artística, iniciativas presentes na literatura e no cinema estão na linha de frente contra essa lacuna histórica.


Desde muito cedo, consta nos livros de História do Brasil que possuímos uma identidade particular, fruto de uma singular mistura racial. Em nosso sangue tupiniquim, fluem cores das mais variadas, salpicadas de partes distantes do globo. Imposta ou não, a convivência com muitos povos nos fez assim e o resultado dessa mistura exerce uma influência que escorre pelos fios de cabelo, o formato do nariz, da boca e dos olhos. Pele. Somos fisicamente plurais.


Nesse sentido, convém constatar que, culturalmente, também somos herança dessa miscigenação. De Norte a Sul, manifestações artísticas sinalizam a existência dessa diversidade. Sem nos atermos a uma catalogação apressada, essa produção pode circular no ambiente ocluso de museus e galerias ou nas ruas e outros espaços a céu aberto brasis afora.


Apesar de tamanha riqueza étnica, por quais razões determinados segmentos sociais não encontram espaço para inserção de saberes em circuitos artísticos que dialogam com um público maior? Observemos o caso específico da música: ainda que o âmbito careça de maior representatividade afro, é fácil lembrar de nomes como Elza Soares, Gilberto Gil e Milton Nascimento - tomando como exemplo somente a Música Popular Brasileira.


Contudo, o que dizer de campos como o cinema e a literatura? De quantos cineastas e escritores negras e negros lembramos quando falamos de mercado cultural no Brasil? Quais as principais figuras que emergem quando enquadradas nessas áreas e quais nunca serão lembradas pela posteridade?


São questionamentos que demarcam uma conjuntura de proporções opressoras, ganhando intensidade justamente em um país cuja população que se autodeclara preta aumentou 6% entre 2016 e 2017, conforme aponta a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), divulgada em abril deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A tendência vem se reafirmando desde 2015, quando os brancos deixaram de ser a maioria nacional.


Diante do centenário do ativista e líder pela luta contra o regime apartheid na África, Nelson Mandela (1918-2013), o momento é de se espelhar nessa trajetória de busca por melhores dias para a população negra e questionar como a memória e vivência desse povo é contada e representada pelas expressões culturais do brasileiro.


A data de aniversário do líder sul-africano foi lembrada na última quarta-feira (18), dia em que Fortaleza recebeu intensa programação cultural voltada à cultura afro na região da Praia de Iracema. Longe de ser isolada, a iniciativa soergue a expressão de pessoas, grupos e ações cuja voz segue inabalável frente ao desafio diário de ser resistência e vigor. Enfim, ser quem são.


Exatos 15 anos da implantação da Lei 10.639, que torna obrigatória a inclusão no currículo oficial da Rede de Ensino a temática "História e Cultura Afro-Brasileira", como os realizadores da área, identificados com a cultura afro, promovem um olhar mais atento sobre estas manifestações? A relevância em torno deste tema, reflete uma produção imaginada e contada pelos negros e negras.


Insurgência


À época trabalhando em uma biblioteca e imbuído da organização do catálogo de livros contemporâneos escritos por autoras e autores negros, o bibliotecário Vagner Amaro logo percebeu dois aspectos: a pouca representatividade desses autores nos acervos e a dificuldade na tentativa de aquisição de obras assinadas por eles. "Descobri que muitos dos livros são editados por pequenas editoras ou de forma independente, o que complica a compra dos exemplares", afirma o hoje editor.


O instante em que se deu o pensamento foi o embrião para a concretização, anos depois, da Editora Malê. Fundada em agosto de 2015, a empresa herda os mesmos ideais de coragem, insurgência e busca por apego ao conhecimento e mudança de um cenário de injustiça presentes no movimento que a batizou. Trata-se da Revolta dos Malês, levante de escravos ocorrido em Salvador no século XIX.


"Uni-me a um amigo, Francisco Jorge, e abrimos a Malê como forma de batalhar por maior visibilidade dos autores negros na cena literária", justifica, sublinhando que a casa prioriza a publicação de autoria negra, sem, contudo, exigir exclusividade nesse recorte.


Até o momento, 30 títulos e, por conta das coletâneas, 50 autores integram o catálogo da editora, com previsão de acréscimo de 40 títulos até o fim do ano. São números bem recebidos pelos fundadores, sobretudo pelo que representam. "Trabalhar em algo que se acredita, tentar mudar um determinado quadro de injustiça, isso dá sentido ao trabalho", atesta Vagner.

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