Barbara Simões, autora do romance "Firmina", conta sobre a preparação de "Úrsula" para o ClubeLê



Barbara Simões, professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora e autora de "Firmina", romance baseado na história de vida da escritora Maria Firmina dos Reis, participou da preparação do livro "Úrsula", de Maria Firmina dos Reis, enviado em junho pelo ClubeLê - clube de assinatura de livros da Malê.


Bárbara escreveu o posfácio do livro sobre a obra e a vida da primeira romancista negra brasileira. A edição de "Úrsula" do ClubeLê também possui o conto A Escrava. Nesta entrevista, ela conta sobre o processo de preparação desta nova edição do livro de Maria Firmina dos Reis para a Editora Malê, assim como sobre o romance inspirado na vida da escritora maranhense.


Malê: Como se deu a preparação da edição do romance Úrsula e do conto A escrava para a Editora Malê?


A edição foi preparada através do cotejo de uma edição recente publicada em 2019 com a sétima edição do romance (publicada em 2018), sendo esta última revista a partir do imprescindível cotejo com o original e da edição fac-similar de 1975. Contei para isso com a preciosa colaboração do professor Eduardo de Assis Duarte, que propiciou acesso à sétima edição e com quem pude discutir e refletir sobre escolhas de edições anteriores e posteriores.


Malê: Você publicou um romance biográfico sobre a Maria Firmina dos Reis e agora preparou esta edição.

Qual a importância de uma maior divulgação da vida e da obra da escritora Maria Firmina dos Reis?


Não tenho dúvidas sobre a importância do estudo de Maria Firmina dos Reis como autora e como personagem da história deste país para a construção de um estudo da literatura brasileira que seja menos excludente. Quando decidi pesquisar a obra da autora, fiquei curiosa sobre sua biografia e sobre o Brasil em que viveu. Sua quase total invisibilidade no século XX e sua ausência no panteão das grandes figuras literárias do nosso país diz mais sobre nós mesmos do que possamos pensar em um primeiro momento. O ponto de vista da autora sobre a grande questão ainda muito mal resolvida em nosso passado e presente – a saber, a escravidão dos negros – desloca a tese geral que grande parte dos escritores abolicionistas escolheu no Brasil, e merece atenção. Por fim, como mulher negra e autora do primeiro romance abolicionista brasileiro, Firmina é das figuras mais necessárias hoje para que possamos finalmente começar a nos olhar no espelho e encarar a história de exclusão sobre a qual nos constituímos enquanto país.

Malê: A edição conta com um posfácio de sua autoria, poderia comentar alguns aspectos da obra que você aborda no texto?


No texto que preparei para acompanhar a edição do livro, abordo justamente este ponto de vista abolicionista firminiano que se difere do tipo de abolicionismo corrente nos romances do século XIX desenvolvido pelos “homens ilustrados da Corte”, e que de fato é o que será descrito por parte dos historiadores como o tipo de abolicionismo mais comum no Brasil, desenvolvido sob a premissa de que o negro escravizado é um inimigo da família branca. Firmina, na clave de um existencialismo cristão, parte da premissa de que o negro é um irmão do branco, portanto membro de uma mesma família, e com base justamente nos preceitos da religiosidade dominante – o catolicismo – conclui que a prática da escravidão é incoerente com seus princípios morais.


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